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Almério imprime sotaque nordestino em músicas de Cazuza

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Desde que nos deixou, aos 32 anos de idade, o carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, popularmente conhecido como Cazuza (1958-1990), vem se solidificando como um dos mais importantes compositores da história do cancioneiro nacional. Suas músicas são cada vez mais reconhecidas como verdadeiras obras-primas e os sucessos são inúmeros, quase todos gravados por ele mesmo, mas muitos também registrados por boa parte da seleta MPB, como Cássia Eller, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Caetano e Gal, só para citar alguns dos célebres.Agora é a vez do pernambucano Almério, 41, prestar sua homenagem a Caju, apelido que Cazuza já tinha antes da fama. Para isso, o cantor e compositor de Altinho (semiárido de PE) gravou Tudo é Amor, um disco inteiro só com canções do ex-vocalista do Barão Vermelho.“Esse disco nasce da dor de uma pandemia. Ele vem desse lugar de dor e revolta, já que nós fomos tão desrespeitados por um desprezível despresidente que nos virou as costas. O objetivo é reforçar as nossas lutas diárias. O nome Tudo é Amor não é em vão, é para hastear as bandeiras de todas as pautas que a gente anda falando”, desabafa o pernambucano. Lado A e lado BO álbum tem 11 faixas e, apesar de ter optado, sabiamente, por gravar algumas canções menos populares do autor de Exagerado, Almério também incluiu no disco alguns standards de Cazuza. O que é sempre um grande risco, afinal muita gente boa já deu sua versão para essas músicas, algumas meio que definitivas.Além do mais, Almério não arriscou muito, preferiu não se atirar sem rede de proteção nos arranjos. Há várias semelhanças entre a gravação dele e outras já existentes, e o que acaba sobressaindo em Tudo é Amor é o doce sotaque nordestino acompanhado de um toque mais agreste.Mas o autor de Desempena diz que a comparação com Cazuza não lhe dá medo e é muito bem-vinda, que o compositor carioca o toca muito e que sua obra ainda é capaz de muita transformação. “Quando escolhi cantar Cazuza, sabia que em algum momento ia esbarrar nesse lugar de semelhança, mas isso não é importante pra mim. O que importa é ter feito um disco muito verdadeiro, ter mergulhado em cada canção para trazer o meu jeito de cantar Cazuza. Tenho orgulho do que a gente fez”, comenta o pernambucano.Almério esclarece que a ideia foi  também apresentar Caju para uma geração que ainda não sabe quem é o autor de Codinome Beija-flor. “Acho importante trazê-lo de volta principalmente por ele ser tão atual. Quantas pessoas se encheram de coragem com a sua música para refletir sobre um monte de coisas”, complementa.Força e melancoliaDe acordo com o cantor pernambucano, o diretor artístico Marcus Preto equacionou o repertório dividindo-o em três grandes sucessos, três sucessos menores e cinco músicas lado B. Sempre com a sonoridade pernambucana e o sotaque agreste como pano de fundo.Almério contou ainda com a colaboração de Pupillo – ex-baterista da Nação Zumbi – na produção musical e pinçou duas canções do álbum Só se For a 2, de 1987: Vai à Luta e O Nosso Amor a Gente Inventa. Outras três de Ideologia (1988), um dos discos mais emblemáticos de Cazuza: Brasil, com participação de Ney Matogrosso, Blues da Piedade e Minha Flor, meu Bebê.De Burguesia (1989), disco mais melancólico do compositor carioca em que já se percebe nitidamente a influência da presença do HIV em sua vida, o cantor pernambucano resgatou três pérolas: Cobaias de Deus, parceria com Angela Ro Ro, Perto do Fogo, co-autoria com Rita Lee, e Quando Eu Estiver Cantando.E para completar o disco, tem Amor, Amor, canção lançada originalmente no lado B de um compacto do Barão Vermelho (1984), Companhia, música feita para Zizi Possi, nunca gravada por Cazuza e que está no disco Amor e Música (1987), de Zizi, e Eu Queria Ter uma Bomba (do LP Maior Abandonado, 1984), com participação mais do que especial de Céu. Música como missãoCom 18 anos de carreira (o cantor considera o início em 2003) e cinco discos gravados, Almério informa que Tudo é Amor vai virar show. “A gente pensa em estrear em março no Rio de Janeiro e Recife, com outras surpresas que não entraram no disco. Quero muito contar essa história, gosto muito do palco, é onde me sinto mais seguro e feliz”, pontua.Para o artista, sua missão existencial é fazer música e cantar. “Minha música quer abraçar as pessoas, atravessar o coração delas, criar pontes, transformar, curar e, ao mesmo tempo, não quero saber o que ela quer para que ela mesma dite os caminhos”, conclui o menino de Altinho.E quem conhece e aprecia a obra de Cazuza, recheada de letras viscerais e extremamente atuais, vai se deleitar com o disco – apesar dele não trazer grandes novidades em termos de musicalidade, mas Almério tem uma voz potente, bem marcada, os arranjos não derrapam e, assim como navegar, ouvir Cazuza é preciso.