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“Nossa preocupação era que a escola não se tornasse um hospital”

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Quando veio a pandemia, uma das primeiras ações dos estados e prefeituras foi levar a escola para o virtual. Brincar no parque, não podia mais. Conversar durante a aula? Como, se agora não dá mais para cochichar e todo mundo vai ouvir? Brincar de pega-pega? Não dá, já que a gente não pode pegar em mais ninguém. Nesse novo mundo tão solitário e esquisito, o cérebro e o comportamento das crianças mudou, de acordo com um estudo publicado pelo Núcleo de Ciência Pela Infância (NCPI). Para elas, é como se estivéssemos vivendo um momento de desastre natural ou de guerra – e, afinal, não estamos? A psicóloga escolar Andressa Militão, especialista em relações interpessoais, conta que todo esse impacto é expressado pelas crianças em forma de sintoma: “A criança vai responder com comportamentos, com desenhos, através de uma brincadeira, adequada ou inadequada”. A morte e o luto, aliás, se tornaram um assunto comum entre os pequenos. E não adianta tentar fingir que nada está acontecendo, porque elas sabem, como aponta a psicóloga. Nesta entrevista, falamos sobre socialização entre as crianças (e os problemas trazidos pela falta dela), traumas gerados pela pandemia, luto e a reabertura das escolas depois de tantos meses fechadas.
Por causa da pandemia de Covid-19, as escolas passaram cerca de 70 semanas fechadas no Brasil, e tiveram que ir para o regime online. Como isso afetou, e ainda afeta, o desenvolvimento social e afetivo das crianças?
Afetou de diversas formas, tanto o emocional quanto o social e, inclusive, no desenvolvimento moral, com valores diferentes, valores familiares, valores coletivos. Isso tudo ficou um pouquinho embaralhado para as crianças. O valor da própria vida foi posto à prova para algumas. Eu vi, na escola em que trabalho, e em um movimento coletivo nas escolas de Salvador, uma preocupação muito grande com os protocolos que iriam permitir essa socialização no retorno às aulas presenciais. A gente não podia perder de vista essa socialização, porque sabíamos que é na escola que a gente consegue colocar em prática uma socialização que na família não acontece. Fica tudo muito restrito àquele grupo familiar, a diversidade fica um pouquinho limitada, os valores ficam limitados. Quando falo em valor, falo do que é justiça, do que é justo. O que é cooperação, por exemplo? É ajudar somente a limpar a casa em que você mora, ou é ajudar inclusive quem não está conseguindo pedir ajuda? Isso acontece na escola, e em casa às vezes não acontece. Então, víamos que a escola precisava se reorganizar para mostrar para a criança que a educação consegue acontecer, mesmo que à distância. A educação chega. E é algo que todos os adultos podem fazer. Antes existia muito esse discurso de que família educa e escola ensina, e precisamos entender que esse discurso é um perigo. Todos os adultos são educadores.
Nessa volta recente para a escola presencial, o que notou de diferente no comportamento das crianças, depois de passarem tanto tempo mais isoladas? 
Eram muitos protocolos. Lá na escola, a gente ensina que, quanto mais regra, menos autonomia. O que eu quero dizer com isso: quando um grupo de crianças é circundado por regras, quer dizer que ele precisa sempre de um agente externo, sempre de alguém ou alguma regra, vigiando a ação dele. Isso não é autonomia, isso é heteronomia. E, quando pensamos em crianças autônomas, pensamos em crianças que sabem o que fazer mesmo quando não tem ninguém olhando, e é esse tipo de sujeito que a gente quer formar. Mas, com a pandemia, as regras foram essenciais para muitas coisas, inclusive a própria segurança, a vida. Então, muitas crianças chegaram questionando: “Para que isso tudo? Como é que se brinca assim? Então, era melhor ter ficado em casa”. Muitas crianças tinham esse discurso até conseguirem entender que aquilo ali tinha uma fundamentação, que não era simplesmente porque a gente queria, porque o adulto estava impondo. E, ao mesmo tempo, a nossa preocupação era que a escola não se tornasse um hospital, não trazer uma lógica hospitalar para um meio escolar. Porque os protocolos são sanitários, de saúde, não é? Então, como transformar isso em um protocolo escolar, sem perder o critério sanitário, e fazer com que a criança chegasse sendo acolhida? Vimos a escola se reorganizando muito e crianças se adaptando a um novo modelo de vida, não só de escola.
Em relação às habilidades das crianças, houve alguma piora? Por exemplo, muitas famílias não conseguem fazer as atividades artísticas, não incentivam a leitura, a prática de atividades físicas… 
Aconteceu, sim. Crianças que tinham antes uma flexibilidade motora, um desenvolvimento motor muito garantido, chegaram muito rígidas, com dificuldade mesmo de correr no parque, de subir em brinquedos. Algumas que estavam com a letra mais bem desenvolvida em termos de escrita, de traço, precisaram reforçar um pouquinho mais.   Muitas chegaram também sem saber se colocar com outras demandas mais delicadas ainda, como, por exemplo, questões com autoimagem. Crianças de 9, 10 anos, por terem acesso a muitos conteúdos de vídeo, TikTok, e alguns outros aplicativos que não são para a faixa etária. Mas, durante a pandemia, muitas famílias flexibilizaram isso. Vimos esses impactos, crianças que desenvolveram quadros de ansiedade, algumas fobias sociais.
Falando nisso, outro ponto importante é em relação aos traumas causados pela pandemia. Vemos muitos adultos que ainda sentem medo de sair, de tocar em objetos e se contaminar… as pessoas estão sempre em alerta. Você nota crianças com esses traumas também?
O que acontece com o adulto, também vai acontecer com a criança. A gente fica com uma ilusão de que não chega, mas chega tudo. Às vezes, chega antes para elas, que são tão pequenas, e não têm nem estrutura neuronal para lidar com o conteúdo. Às vezes, ela não consegue entender. Às vezes, entende de uma maneira completamente deturpada, e vai responder dentro da possibilidade dela. Então, algumas crianças vão realmente responder com sintomas, não com palavras. Ela vai responder com comportamentos, com desenhos, através de uma brincadeira, adequada ou inadequada, com uma forma de falar muito destoante da que a gente percebia antes. Enfim, não só crianças que desenvolveram processos patológicos, mas também comportamentos que não são adequados socialmente. Pode faltar um pouco de habilidade social, de saberem o filtro, de saber fazer uma autorregulação, o momento em que eu paro para o outro seguir… isso ficou em falha. Tem algumas lacunas que ficaram no meio do caminho e precisam ser revistas para esse sujeito estar inserido na sociedade com saúde.
O comitê científico do Núcleo de Ciência Pela Infância (NCPI) publicou o estudo Repercussões da Pandemia de Covid-19 no Desenvolvimento Infantil. Nessa pesquisa, há evidências de que o cérebro de 0 a 6 anos reage à pandemia da mesma forma que a guerras e desastres naturais, por exemplo. E, como consequência, isso gera mais estresse e até um comportamento mais infantilizado, como se a criança regredisse. Por que isso acontece e como amenizar?
A criança vai responder dentro das estruturas que ela tem internamente, do repertório dela. E a gente viu, sim, crianças que regrediram um pouco, tanto no desenvolvimento cognitivo, quanto no afetivo, interpessoal. Tivemos crianças que precisaram de um investimento muito maior para trazer à tona aquilo o que ela já tinha garantido. Para dizer a verdade, não é nem como se ela tivesse tido uma regressão no desenvolvimento cognitivo, até porque isso não acontece. Quando ela passa de uma etapa, ela não volta. Ou paralisa, ou vai adiante, fluindo dentro do esperado. Mas os comportamentos, a depender da criança, a depender do que ela estiver vivendo, do contexto familiar e do contexto social, ela pode ter o comportamento regredido. Por exemplo, a criança pode começar a fazer mais birras, quando, na verdade, ela já tem garantida a linguagem, outras estratégias para solicitar o que ela quer, e não consegue mais fazer isso, aí ela vai regredir o comportamento chorando, batendo o pé.  E isso sempre quer comunicar algo.
Pensa que foi o isolamento que provocou esse comportamento mais infantilizado? Até pela falta de convivência com outras crianças em ambientes sociais, talvez?
Olha, não posso colocar a culpa só no isolamento, mas acho que, com o isolamento social, teve uma parcela significativa de lacunas que as crianças acabaram desenvolvendo que na escola elas facilmente garantiriam. Mas seria um equívoco muito grande da minha parte dizer para você que isso é irreversível, sabe? Porque se a gente pensa que a criança está se desenvolvendo e que esse desenvolvimento é contínuo, eu posso dizer que aquilo que ela não garantiu antes, ela pode garantir agora. Mas, em termos de vivências, isso sim, tem vivências que elas não vão conseguir ter. É em uma brincadeira, por exemplo, que ela vai entender o que é o limite, ela vai entender que ela não vai ter o brinquedo na hora que ela quer porque tem um colega usando, vai entender que as pessoas brincam de formas diferentes, e que está tudo bem. Vai entender que não se faz piada com tudo, vai entender sobre respeito, e que quando um colega cai, se você está brincando, é mais importante ajudar o colega do que continuar a brincadeira. Isso tudo ela pode viver na escola, então, o isolamento impediu que essas situações acontecessem. Mas, já esperávamos, de certa forma, que isso fosse acontecer, por isso que é importante que a escola esteja bem preparada para enfrentar o que vem. A gente pode, sim, receber crianças com um déficit muito grande nisso, nessa convivência que promove tantos aprendizados. Mas a gente também precisa ficar atento para não entrar em um discurso de que “não deu, então, já era”.
A pandemia aprofundou desigualdades sociais. Em relação às escolas, por exemplo, vimos que muitas crianças não tinham acesso a uma internet de qualidade ou dispositivos para participar das aulas, e tiveram a educação extremamente prejudicada. O que podemos fazer por essas crianças agora? Foi pior para elas?
Com certeza, disso eu não tenho dúvida. A gente viu que muitas crianças foram prejudicadas porque estavam em uma classe econômica desfavorecida e ponto. E os órgãos responsáveis por esse investimento não deram conta. Então, é óbvio que a escola particular, por ter esse financiamento das famílias, ter uma estrutura mais arrojada, conseguiu garantir um investimento tecnológico, e que bom, mas a gente não pode perder de vista que as escolas municipais de Salvador não tiveram esse mesmo investimento e, com certeza, tiveram mais perdas sociais, pedagógicos e emocionais. Sem dúvidas, essas crianças e adolescentes tiveram mais perdas, e vai ser uma corrida contra o tempo agora. É uma fase em que tudo muda muito rápido. Precisa-se acompanhar esse ritmo para que essas habilidades, essa construção interna desse sujeito não se perca, ou, pelo menos, não seja desassistida.
Nesse período, vimos que as crianças começaram a conviver mais e quase que exclusivamente com adultos. Essa pouca convivência com outras crianças pode ter atrapalhado esse desenvolvimento?
Eu falaria primeiro da consequência de não conviver com crianças. Perdem-se possibilidades entre pares, de criança para criança, adolescente para adolescente. Existe, sim, um fenômeno entre pares, que só acontece entre eles, e adulto nenhum consegue tomar esse lugar. Às vezes, é uma confidencialidade, uma relação de confiança, que não necessariamente existe entre criança e adulto. Nessa privação de conviver com outra criança, elas podem passar a naturalizar comportamentos que não são adequados para a faixa etária delas, que podem ser violentos, desrespeitosos, abusivos, o que é muito grave, e perder um pouco mais desse âmbito que é a infância. Perder a oportunidade de viver a infância é uma violência.
Durante a pandemia, muitas crianças ficaram órfãs, ou perderam alguém próximo. O luto acabou se tornando uma experiência comum, coletiva. Como pensa que isso impacta as crianças?
É um processo muito difícil para elas. Elas são muito pequenas, e as próprias condições que elas têm, internas, dificultam a compreensão do que realmente aconteceu. Mas, o que vimos também foram crianças que queriam falar sobre isso porque não estão alheias. O evento aconteceu, ela precisa falar para elaborar. A criança que não consegue elaborar muito bem esse luto vai desenvolver estratégias, e isso pode vir através de sintomas, de um comportamento novo, por exemplo, fazer xixi na cama, comer demais ou de menos. E esses mecanismos querem sempre comunicar algo. Na escola, já no presencial, vimos que as crianças tinham conversas assim. Tem coisas que a gente que é adulto fala, mas que não chega com a mesma importância, a mesma intensidade, do que o que é dito por outra criança. E a escola precisa ser esse lugar de acolhimento. Precisamos falar sobre perdas porque, mesmo que queiramos tocar nesse assunto, ele chega. Como não falar de morte com as crianças? Elas vão querer falar, então, a gente precisa estar pronto para sustentar essa conversa.