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“Vivemos em um período de mudanças e definições”

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Vivemos em um período de mudanças e
definições”. Segundo Sergio Manzione, psicólogo, o isolamento social impôs uma
série de modificações nas relações interpessoais. “O tempo de convivência mudou
muito, e com isso os problemas potenciais e existentes ficaram mais aflorados”.
Autor do livro “Viver sem ansiedade”, que acaba de ser lançado, Sergio aponta
os principais problemas psicológicos, que foram potencializados pela pandemia.
Para ele, “é necessário sempre avaliar o caminho em que se está andando para
corrigir a rota”. Até porque, “se você quer que algo tenha resultado diferente,
então faça diferente”, como disse o autor, ao destacar a importância de
construir a própria trajetória. Ele aproveitou ainda para dar uma dica de
pre-réveillon: “é importante listar os objetivos que se pretende alcançar” no
próximo ano. Confira:
Estamos ainda em pandemia. Que
avaliação você faz desse período? 
Momento difícil?
Vivemos em um período de mudanças e
definições. O isolamento social fez com que as pessoas se encontrassem e
convivessem em período integral com suas famílias. Em tempos normais, um casal,
por exemplo, não convive 24 horas por dia, porque um ou ambos saem para
trabalhar, estudar e fazer outras atividades fora de casa. Considerando que
fiquem oito horas distantes por causa do trabalho, e mais quatro horas, devido
a deslocamento e demais compromissos, o casal fica junto durante as outras doze
horas, sendo que oito delas são para dormir. Dessa forma, esse casal, que
convive em torno de 4 horas por dia, passou a conviver 24 horas. Estou
generalizando os números, porque naturalmente há variações, mas o que quero
dizer é que o tempo de convivência mudou muito, e com isso os problemas
potenciais e existentes ficaram mais aflorados. No caso de um casal com filhos,
a convivência trouxe à tona fragilidades dos relacionamentos nos núcleos
familiares. Muitas mães, que passaram a ficar em casa, se viram em dificuldade
ao ter de conviver com os filhos em tempo integral, e a mesma coisa ocorreu com
os pais. Vários pais e mães buscaram na internet por atividades para entreter
os filhos, porque ou não tinham tempo para brincar, ou, de fato, nem sabiam
como fazer. Nesse quadro, muitos casais definiram suas situações e puderam
romper o relacionamento, que já estava desgastado antes da pandemia, que só
veio ser um catalisador da definição. Só para contextualizar, em maio de 2020,
a busca na internet por termos como “divórcio digital”, ou “divórcio gratuito”,
aumentou em torno de 5.000%, e o número efetivo de divórcios vem batendo
recordes de aumento desde 2020. De outro lado, muitos casais, que pensavam na
separação puderam redescobrir porque, afinal, vivem juntos, e decidiram
continuar com a união. A aproximação de pais e filhos também expôs seus
problemas de relacionamento, e fez com que muitos procurassem ajuda
profissional para aprender a ter uma convivência familiar equilibrada.
Infelizmente, a violência física, psicológica ou sexual também aumentou 20% na
pandemia, e pior, esse número deve ser maior, já que as muitas mulheres moram
com o agressor e tem medo de fazer algum tipo de denúncia. Ressalto que existem
vários “brasis” com enormes diferenças sociais e econômica e, portanto, não se
pode generalizar as conclusões. O que mais é discutido por todos é um recorte
de comportamento da classe média brasileira, que pode ficar em casa trabalhando
remotamente, o que é bem diferente daqueles que precisam sair de casa
diariamente, e não tem a certeza de que irão encontrar o sustento da família
para aquele único dia. Para essa parte enorme da população a pandemia foi só
mais um problema a ser administrado.
 A crise na saúde pública destampou
outra crise, a dos problemas psicológicos. Como avalia isso e quais os
principais distúrbios percebidos hoje?
Os dois principais transtornos
mentais que aumentaram com a pandemia foram a depressão e a ansiedade, mas também
houve aumento da síndrome do pânico, estresse pós-traumático, esquizofrenia
paranoide e do transtorno bipolar, todos muito relacionados com o medo do
contágio da covid-19, medo da própria morte ou de parentes, falta de interação
social, insegurança quanto ao próprio emprego, além do luto pela perda de
amigos e familiares. Estudo de outubro de 2021, da Organização Pan-Americana da
Saúde (OPAS), aponta que houve aumento de 40% nos casos de depressão no Brasil.
É preciso destacar que depressão é uma doença séria, e que atinge mais de 320
milhões de pessoas em todo o mundo. Um estudo, publicado em outubro de 2021, na
renomada revista científica Lancet, apontou que em 2020 houve, no mundo, 53,2
milhões de novos casos de depressão, e de 76,2 milhões de ansiedade. No Brasil
há por volta de 15 milhões de depressivos, então já passou da hora de
considerar a depressão como “frescura”, “preguiça” ou “mi-mi-mi”, pois é uma
doença grave e com consequências danosas para o indivíduo, para sua família, e
para a sociedade como um todo. A notícia boa é que há tratamento eficaz contra
a depressão. No entanto, o preconceito ainda é muito grande contra quaisquer
questões envolvendo transtornos psicológicos, o que dificulta a procura de
ajuda profissional. No Brasil, estima-se que 65% dos integrantes de uma família
não sabem o que é a depressão, nem muito menos como enfrentá-la, o que
atrapalha, e muito, na recuperação do paciente.
 Você está lançando um livro sobre
ansiedade. Esse é um dos maiores problemas da sociedade hoje?
Sem dúvida é um problema marcante,
que se agravou com a pandemia, e com os efeitos da crise econômica pela qual o
país passa. Hoje há pessoas com ansiedade porque não conseguem um emprego novo,
e outras com medo de perder o atual. Na prática, ou você está com ansiedade, ou
alguém próximo está. Uma das minhas motivações é ajudar as pessoas a ter uma
vida mais feliz, e escrever o livro é um meio de fazer isso, tornando o acesso
a métodos simples e práticos para andar na direção de uma vida de paz, por isso
o título é Viva Sem Ansiedade. Como já dissemos, o transtorno de ansiedade
aumentou muito no mundo desde 2020, e a OMS considera que o Brasil é o país com
mais ansiosos em todo mundo, o que representa algo como 20,5 milhões de
brasileiros. Trata-se de um problema de saúde pública grave, mas que ainda
precisa ter mais atenção dos governos na definição de políticas públicas
inclusivas, bem como em campanhas de esclarecimento e incentivo à procura dos
profissionais capacitados para lidar com a doença. A constatação de que o
número de ansiosos vem crescendo muito mostra a necessidade de esclarecer o
assunto, desmistificar o tratamento, e torná-lo acessível a todas as pessoas.
 Como perceber e diagnosticar a
ansiedade? Quando é chegada a hora de buscar ajuda profissional?
É preciso fazer a separação entre o
que se pode chamar de ansiedade normal, e a patológica. Por exemplo, aguardar o
resultado do vestibular ou do nascimento de um filho pode gerar ansiedade, mas
ela cessa quando se dá o desfecho da história. Nesse caso, a ansiedade é uma
reação natural e não demanda maior preocupação. No entanto, quando a ansiedade
ocupa os pensamentos de forma ampla, e não tem causas definidas, a situação
requer atenção, pois pode se tratar do Transtorno de Ansiedade Generalizada
(TAG). Os principais sintomas de ansiedade incluem angústia, inquietação,
preocupação excessiva, pensamentos repetitivos e recorrentes, medo, pânico,
aperto ou “bolo” no peito, palpitação, falta de ar, tontura, respiração curta,
sudorese excessiva, e formigamentos. Em quaisquer situações, quando a ansiedade
impede ou atrapalha o desempenho das atividades diárias, como trabalhar ou
estudar, é chegada a hora de procurar a ajuda profissional para que os sintomas
sejam debelados e a doença tratada de forma adequada. O tratamento é com a
psicoterapia, e podem ser utilizados medicamentos quando necessário. Por isso
também, é muito importante que o diagnóstico seja dado por profissional
qualificado da área de saúde, justamente para evitar que se perca tempo com ações
ineficazes, e que o sofrimento se prolongue. Não faça autodiagnóstico, nem
acate opiniões de quem não tem conhecimento profundo do assunto.
 O ano de 2021 está terminando, é importante
fazer uma avaliação sobre os erros e acertos do ano?
É muito importante avaliar o que foi
feito errado ou resultou em algo frustrante. O erro não é o problema central,
mas, sim, o que você faz depois de cometê-lo. Erros não devem ser encarados
como fontes de sofrimento, mas como fatos que nos ensinam a compreender o que
aconteceu, e fazer diferente. Olhe para o erro de forma objetiva, procure a
solução e faça novamente. Se você errar novamente, procure entender onde e
porque errou, procure aprender como fazer diferente, e faça. Lembre-se que só
erra quem faz. Outra coisa muito importante é aprender a se perdoar diante dos
próprios erros, pois não há ninguém perfeito e, tenha certeza, você não é uma
exceção, nem aquela pessoa que você admira tanto. Em suma, errou, conserte. Não
dá para consertar, perdoe, perdoe-se, estude, observe, aprenda a fazer de um
jeito diferente, e coloque em prática.De forma ampla, é preciso avaliar
sinceramente nossos pontos fortes e reforçá-los, e olhar os pontos fracos e
fortalecê-los. Errar, como disse Thomas Edison, é aprender uma nova maneira de
não fazer.
 Ano novo, vida realmente nova,
Sérgio?
Depende de cada um fazer opções por
caminhos melhores para andar. Nossas escolhas sempre envolvem algum risco de
não dar certo, e, se não der, podemos fazer novas escolhas para corrigir o cenário.
Isso inclui sair de relacionamentos tóxicos, seja amoroso, de trabalho, de
amigos, ou da própria família. Relacionamentos, de todos os tipos, devem ser
prazerosos, mas se trazem sofrimento é porque há algo errado, e que precisa ser
consertado. Fuja do que for negativo: pessoas, notícias, ambientes e tudo mais,
e aumente seu autoconhecimento para aprender a andar na estrada esburacada da
vida sem cair nos buracos que ela traz.
 Vale a pena fazer a lista de
prioridades e desafios para o ano que se inicia?
Sim, com certeza é importante fazer
uma lista dos objetivos que se pretende alcançar, mas, não menos importante, é
definir metas que sejam possíveis de serem alcançadas. Não adianta prometer, no
dia 1 de janeiro, que vai emagrecer 20 quilos, e colocar como meta fazer isso
em 30 dias. Coloque uma meta que você pode atingir, talvez dois ou três quilos
no primeiro mês, sempre acompanhado por profissional da área. Se você vai
prometer fazer exercícios físicos, a partir de janeiro, indo seis vezes por semana
à academia, talvez seja bem mais realista se comprometer a ir duas vezes por
semana, e depois aumentar. Metas atingíveis mostram que você é capaz de se
comprometer e atingir os resultados esperados, e isso vai alimentar sua
motivação para seguir em frente. Lembre que é necessário sempre avaliar o
caminho em que se está andando para corrigir a rota, caso as coisas não
aconteçam como esperado. Para isso, como eu já disse, é preciso ver a realidade
como ela se apresenta, o que permite enxergar mais claramente os problemas e
dificuldades, e partir na busca do conjunto de atitudes necessárias para
resultar na solução certa. Observe como os outros fazem. Deixe o orgulho de
lado, porque o outro pode fazer melhor, mais barato, mais bonito, e mais
simples que você. Portanto, deixe os outros fazerem as coisas para você
aprender novos caminhos, ou ter certeza de que o seu é o melhor.
 Que conselho pode dar para as pessoas
que querem fazer um ano verdadeiramente novo?
Se você quer que algo tenha resultado
diferente, então faça diferente, pois se fizer sempre igual o resultado vai ser
o mesmo. É o óbvio, mas é preciso vê-lo. Claro, que nem sempre é possível fazer
tudo diferente por diversas razões, muitas delas fora do controle da própria
pessoa. Então faça, algo diferente, mesmo que pareça pequeno. Mude um jeito de
fazer, de falar, de mostrar seus sentimentos, de encarar a realidade. Reclamar
não vai adiantar, porque trava e atrasa sua busca por uma solução. Ao invés de
lamentar o infortúnio, veja como você fará para resolver o problema. Mas
entenda que nem sempre damos conta de tudo sozinhos e precisamos do auxílio dos
amigos, familiares, e do psicólogo. Não adie a busca por ajuda, porque nem
sempre as pessoas conseguem enxergar suas necessidades. De outro lado, fique atento
às pessoas que estão à sua volta e que você ama. Preste atenção nelas e procure
saber o que elas estão passando e como você pode ajudar, e ajude!  Se for para criticar e mostrar que só o seu
jeito é o certo, então nem vá. Como já diziam os antigos “muito faz quem não
atrapalha”.
 É importante ser otimista e ter
esperança, Sérgio?
O importante é ser realista e ver o
mundo e as pessoas como elas são, e não como gostaríamos que fossem. Sonhar e
desejar algo melhor é algo natural, mas na dose certa. A cabeça até pode ficar
um tempo nas nuvens, mas os pés têm de ficar sempre no chão. Otimismo nos
motiva, mas não deve nos cegar em relação ao que está acontecendo no presente,
pois é preciso reconhecer que há um problema para poder defini-lo e buscar a
solução adequada. Viva o presente. Consulte o passado como se fosse uma
biblioteca, entre, veja o que quer, e saia. O futuro, por sua vez, não existe,
e deve ser planejado no presente.
Só vivemos uma vez e a hora é esta.
Não perca tempo com bobagens, intrigas, discussões, demonstrações de poder e
força, pois o tempo voa. Viva e deixe viver. Ao invés de orgulho, humildade. Ao
invés de egoísmo, caridade.