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Zendo Melo é um talento a ser descoberto na terra natal

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 Às vezes é preciso botar o pé na
estrada para encontrar a si mesmo e seu lugar no mundo. Evidentemente em um
país pobre como o Brasil não é todo mundo que pode, mas entre aqueles que
podem, volta e meia aparece alguém que faz jus ao investimento.
 O soteropolitano Rozendo Loyola de
Melo Neto é certamente um destes. Filho da classe média local, teve o apoio dos
pais para, em 1991, aos 18 anos, ir embora do país para estudar música, sua
paixão de vida, na Itália.
 O plano original era voltar em 1992.
30 anos depois, Zendo Melo, como é mais conhecido, é praticamente um brasileiro
renascentista na terra da Renascença: é um experiente músico (popular e
erudito), um tatuador super requisitado, artista visual em ascensão e
cartunista / quadrinista nas horas vagas.
 De uma casa de pedra a duas horas de
Roma, nos verdejantes campos da Umbria, região localizada bem no centro da
península itálica, onde vive com a mulher e as filhas, Zendo sai todos os dias
para seu estúdio de tatuagem, o Macondo Tattoo Art, seu principal ganha-pão,
localizado em um simpático vilarejo a 15 minutos de carro.
 Apesar de amar a atividade de
tatuador, o baiano está agora bem empolgado com um outro ramo de atividade: o
desenho sobre papel – desenhos estes que, descobertos nas redes sociais por uma
marca de confecções, a Ajaloi!, estão ganhando a Itália e outros países da
Europa estampados em camisetas e agasalhos. 

  No auge da pandemia – que vale
lembrar, foi especialmente cruel com a Itália em 2020 –, Zendo ficou sem poder
abrir o estúdio. Desenhista autodidata desde criança, depois por conta da
atividade como tatuador, desenhar nas horas desocupadas (até para tirar o foco
das notícias trágicas que chegavam a todo momento), se tornou atividade diária.
 Foi aí que surgiu esta série de
desenhos em P&B, alguns vistos nesta página, os quais estampam as peças de
vestuário. “Comecei a fazê-los durante o lockdown, que aqui foi bastante
dramático. Fechado em casa, em uma situação surreal, essas imagens começaram a
brotar, uma depois da outra. Um período fértil nesse sentido, terrível no
sentido pandêmico. E continuo até hoje a aumentar a coleção. Até agora são
cerca de 100 ilustrações, feitas por puro prazer”, conta ele por email.
 “O meu desejo inicial era fazer uma
exposição com alguns deles, mas os problemas causados pela pandemia e a
necessidade de me dedicar às outras atividades fizeram com que a coisa fosse
engavetada. Provavelmente está chegando o momento de fazê-la”, afirma,
esperançoso – inclusive com a possibilidade de expô-los aqui, em sua cidade
natal – caso algum galerista se interesse. “Claro, seria muito interessante,
até porque essas imagens têm muito a ver com Salvador, com o mar, com minhas
lembranças”, diz.
 Seres humanos minúsculos
Enquanto a oportunidade não surge,
ele também tem vendido os desenhos originais em papel: “Alguns já se encontram
em suas novas casas: dois em Nova York, outros aqui pela Itália, um na
Austrália. Acho reconfortante pensar que o mundo não acaba nas fronteiras de um
país”, observa.
 No papel, Zendo demonstra um domínio
notável de seu ofício ao desenhar com realismo fotográfico diversos animais –
só que estes aparecem em situações nada realistas, e sim, absurdas e um tanto
bem humoradas. “Certamente tem uma mensagem ecológica, afinal a cena é sempre
dominada por esses seres tão interessantes. Esse é o aspecto visível imediato.
Depois tem o lado subjetivo que é dado pelo absurdo da cena que se apresenta,
estabelecendo um diálogo, oferecendo uma estória ao espectador”, descreve.  

   “A ironia está sempre presente, uma
imagem que causa um sorriso já estabeleceu uma comunicação. Já a figura humana,
quando aparece, é bem pequena, um detalhe solitário, muitas vezes uma espécie
de aprendiz de feiticeiro em um jogo de ilusões muito maior do que ele. Essa
foi a linguagem que achei para evocar determinadas ideias, situações,
sensações. Acho que o surrealismo espelha bem um mundo surreal”, acrescenta
Zendo.
 Para além da beleza evidente da arte,
vale notar ainda a técnica do artista, totalmente avesso a ferramentas
eletrônicas: “Uso principalmente canetas nanquim com ponta muito fina (0.05) e
tinta nanquim diluída com água, no pincel. O método vai depender do tipo de
papel, que experimento sempre em tamanhos e texturas diferentes. A técnica
principal é o stippling, série de pontos que vão formar sombras e texturas da
imagem. Além disso, acrescento em camadas sucessivas cross lines (linhas
cruzadas), tinta diluída , e tudo o que serve pra chegar ao resultado que
quero. O importante é ter paciência”, conta.
 Guitarrista de técnica apurada e
cantor em banda de heavy metal (W.O.M.P., já extinta) com discos gravados e
muitos shows pela Itália, violoncelista, professor de violoncelo, tatuador,
desenhista, quadrinista (com HQ publicada em uma revista independente nos EUA):
aos 49 anos, este baiano movido à pasta não parece conhecer limites para seus
múltiplos talentos. 

  
 Seu maior desejo agora é algo bem
comum a todos os brasileiros: “Para o ano estarei aí com vocês para
comemorarmos todos juntos a queda do bolsonarismo. Com acarajé e água de côco”.
Oxalá.
 LEIA A ENTREVISTA COMPLETA
Faça um pequeno resumo de sua trajetória
desde que chegou à Itália.
 Zendo Melo: Vou tentar um resumo bem
concentrado: chego na Itália em 91,para estudar música e já inscrito em língua
italiana na Università per Stranieri de Perugia. Entro no curso de violão
clássico na escola G. Frescobaldi e vou a integrar um grupo de heavy metal
(W.OM.P., Watts of Music Power), com o qual nos anos a seguir faremos shows por
todo o País no circuito alternativo underground (CPA – Firenze, Forte
Prenestino – Roma, Woodstock – Brescia etc.). Me casei com a guitarrista do
grupo, Lory Bruno e gravamos nos anos a seguir três CDs, sendo o primeiro de
94, Madness Manipulators (por Supporto Italiano e Nosferatu Records).
Paralelamente ao grupo, abro o estúdio de tatuagens Macondo Tattoo Art, após os
devidos cursos de habilitação. Começo a estudar o violoncelo ainda nos últimos
anos de atividade da banda, passando por várias escolas e professores: G.
Frescobaldi, Scuola di Musica di Marsciano, La Maggiore; nesta última passaria
a ensinar na classe de jovens cellistas mais tarde. Enquanto isso, a banda de
metal cessa de existir e, por volta de 2016,com a mudança de sede do estúdio de
tatuagem, me distancio da música em geral para me ocupar mais tatuando. Até a
chegada de 2020, que com a pandemia e o lockdown mudou tudo mais uma vez.
Comecei a dedicar muito do meu tempo à criação dessas ilustrações.
 Além do curso de música e do de
tatuagem, você fez algum curso específico de desenho a fim de chegar nesse
resultado que você exibe hoje? Qual a técnica? Lápis sobre papel? Nanquim? É
tudo no computador / iPad mesmo?
 ZM: Nenhum curso nesse sentido.
Aprendi a desenhar desenhando. E observando. Claro, adoro a arte clássica, tive
oportunidade de estudar e observar ao vivo muita coisa mas sou completamente
autodidata no desenho. Certa vez minha filha me disse que eu trabalho com
desenhos no estúdio e quando volto pra casa, desenho mais um pouco pra relaxar
(risos). Mas é isso mesmo, faço meu o famoso lema “nulla dies sine linea“
(“nenhum dia sem uma única linha”, frase em latim atribuída ao historiador
romano Plínio, O Velho). Mas não uso meios eletrônicos/ digitais para desenhar.
Nisso eu sou meio “purista”,no sentido que não uso compasso, régua e nem
imagens de referência. Pra mim um desenho calculado perde a graça. Os animais
que aparecem são lembrados / imaginados como em um sonho . Então uso
principalmente canetas nanquim com ponta muito fina (0.05) e tinta nanquim
diluída com água, no pincel. O método de trabalho vai depender do tipo de
papel,que experimento sempre em tamanhos e texturas diferentes. A técnica
principal é o stippling, série de pontos que vão formar sombras e texturas da
imagem. Mas além disso acrescento, em camadas sucessivas, cross lines (linhas
cruzadas), tinta diluída , e tudo o que serve pra chegar ao resultado que
quero. O importante é ter paciência.
 Nessa série de desenhos que estão
sendo transformados em camisetas, o elemento em comum é sempre a presença de
animais envolvidos em alguma situação surreal. O realismo com que você desenha
os bichos, a perfeita anatomia é a cereja do bolo, causando um efeito
muito  desconcertante e bem humorado.
Como você chegou nessa, digamos, fórmula? Como uma coisa levou à outra? Há
alguma mensagem ecológica?
 ZM: Certamente tem uma mensagem
ecológica, afinal a cena é sempre dominada por esses seres tão interessantes.
Esse é o aspecto visível gráfico imediato. Depois tem o lado subjetivo, que é
dado pelo absurdo da cena que se apresenta, estabelecendo um diálogo,
oferecendo uma estória ao espectador. A ironia está sempre presente, uma imagem
que causa um sorriso já estabeleceu uma comunicação. Já a figura humana, quando
aparece, é bem pequena, um detalhe solitário, muitas vezes uma espécie de
aprendiz de feiticeiro em um jogo de ilusões muito maior do que ele. Essa foi a
linguagem que achei para evocar determinadas idéias, situações, sensações. Acho
que o surrealismo espelha bem um mundo surreal.
 Como surgiu a oportunidade de
comercializar seus desenhos em camisetas? Além delas, eles aparecerão em outros
produtos também? E como está sendo a recepção? Você tem vendido originais
também?
 ZM: Essas são algumas aplicações para
os desenhos. Pensei que pudesse ser interessante, sendo eu também amante de
t-shirts originais, propor esse tipo de projeto. Daí nasceu a colaboração com a
marca AJALOI!, que se interessou logo pelas imagens propostas. A coisa encaixou
bem porque eles tratam exatamente esse ponto de encontro entre arte,moda e
design. Agora eles têm os direitos exclusivos para uma série de camisetas e
casacos com algumas das imagens mais interessantes, é só dar uma olhada no site
www.ajaloi.it . Começamos esse mês com uma coleção de cinco desenhos, aos quais
se somarão outros e a coisa está indo muito bem. Quanto aos originais, sim,
alguns já se encontram em suas novas casas, dois em New York, outros aqui pela
Itália, um na Austrália. Acho reconfortante pensar que o mundo não acaba nas
fronteiras de um país. Em todo caso sim, é bem possível que outros desenhos
possam vir a integrar outros produtos no próximo ano.
 Além desses produtos, você tem
colaborado com ilustrações, HQs e cartuns para publicações, confere? Tem tido
uma boa saída? Como tem sido essa demanda?
 ZM: Com as HQs aconteceu que o editor
da revista americana Hindsight Magazine entrou em contato comigo depois de ter
visto algumas dessas ilustrações em uma rede social. Através delas ele chegou
aos meus cartoons, gostou, e encomendou uma para o próximo número da revista.
‘Lockdown’ (esse o título da estória) saiu em maio e, para minha surpresa, foi
muito bem recebida (risos). Com os quadrinhos uso uma linguagem completamente
diferente, nada de desenhos bem acabados, tudo num estilo muito imediato e
sarcástico, punk weird comics com um lado político. É possível ler um trecho no
site www.hindsightmag.org . Outras virão.
 Você hoje tem mais trabalho como
desenhista / ilustrador, tatuador ou músico / professor de música?
 ZM: Neste exato momento estou mais
ocupado com as tatuagens. Mas todas essas coisas convivem e se sobrepõem.
Trinta anos depois de chegar à Itália,
como avalia sua decisão de construir sua vida por aí? Você acha que teria as
mesmas oportunidades aqui no Brasil? Você já sentiu, alguma vez, alguma
desvantagem aí por ser estrangeiro?
 ZM: (Permanecer na Itália foi) Uma
decisão corajosa, mas não particularmente heróica (risadas). Ser estrangeiro é
sempre desvantajoso, a menos que você seja um magnata. Nos primeiros anos,
sentia mais essa coisa de ser estrangeiro,mas é sempre um fator caracterizante,
de um modo ou de outro. Hoje sou como uma ponte entre dois mundos em movimento.
Com tanto muro e despenhadeiro, essa ideia me estimula.
 Você já fez alguma exposição (seja
individual ou coletiva) por aí? Pensa em de repente expor essa sua leva mais
recente de trabalhos aqui em Salvador também?
 ZM: Esse material ainda não foi
exposto fisicamente. Considere que comecei a fazê-los durante o lockdown, que
aqui foi bastante dramático. Fechado em casa, em uma situação surreal, essas
imagens começaram a brotar, uma depois da outra. Um período fértil nesse
sentido, terrível no sentido pandêmico. E continuo até hoje a aumentar a
coleção. Até agora são cerca de 100 ilustrações, feitas por puro prazer, sem
que fossem encomendadas ou que tivessem um fim estabelecido. O meu desejo
inicial era mesmo fazer uma exposição com alguns deles, mas os problemas
causados pela pandemia e a necessidade de me dedicar às outras atividades
fizeram a ideia ser engavetada. Provavelmente está chegando o momento de
fazê-la. E porque não em Salvador, claro, seria muito interessante, até porque
essas imagens têm muito a ver com Salvador, com o mar,com minhas lembranças.
 Você e Lory também levam juntos um
som em uma nova banda, correto? Qual o nome, estilo? Tem tocado ao vivo? Já é
possível ouvi-la em algum lugar (seja streaming, YouTube etc)?
 ZM: Sim, voltamos também a tocar
rock, sempre juntos. O grupo é Our Garden Machine, um power trio com Lory na
guitarra, eu no baixo e vocais e Federico Vanni na bateria. Nos divertimos
muito. Rock com mil influências underground. Acabamos de gravar na semana
passada duas músicas (Lazy e Videodrome), no Lemonade Sound Studio, em Cittá
della Pieve, que agora estão em fase de mixagem. De uma será feito um vídeo.
Fechamos com o selo Blond Records para lançar as músicas, que quando prontas,
entrarão nos circuitos de plataformas digitais. No mês passado fizemos nossa
primeira apresentação ao vivo na Darsena, um local da área de Perugia conhecido
no circuito de música alternativa. Depois de tanto tempo sem música ao vivo
devido ao covid, lentamente os clubes voltam a se organizar . E nós também.
 Fique à vontade para mandar uma
mensagem para os conterrâneos, família, amigos etc.
 ZM: Aproveito a ocasião insólita para
te agradecer pelo interesse no meu trabalho e mandar um beijo enorme para meus
pais, irmãos, familiares e amigos que a distância não separou. Para o ano
estarei aí com vocês para comemorarmos todos juntos a queda do bolsonarismo.
Com acarajé e água de côco.