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A resistência das telonas diante do streaming

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A chegada das plataformas de
streaming no Brasil facilitou o acesso de muitas pessoas a produções
audiovisuais de toda a parte. Com o surgimento da pandemia do novo coronavírus,
em 2020, o crescente movimento dos serviços no mundo teve um salto gigantesco e
consolidou o sentido que essas plataformas estão aqui para ficar.
Segundo dados da MPA (Motion Pictures
Association), publicados pela Forbes no ano passado, as assinaturas de serviços
de streaming cresceram 26% em 2020. Com as salas de cinemas fechadas por meses,
só era possível conferir algo novo quando produções originais das plataformas
eram lançadas para o público. E isso permaneceu por muitos meses.
Agora, salas de cinemas já estão
reabertas, seguindo protocolos, novos filmes de grandes produtoras estreiam com
exclusividade nos cinemas e o público finalmente está voltando para esses
espaços. Hoje, é possível escolher assistir um filme no conforto de casa ou na
imersão proposta pelas salas escuras do cinema. Opção é o que não falta.
Em Salvador, a professora Jane
Cardoso, de 58 anos, aproveita sempre as sessões especiais destinada a
professores que é oferecida no Cine Metha – Glauber Rocha, que fica na Praça
Castro Alves. Com preços mais acessíveis e com direito a meia-entrada para
acompanhante, ela conta que esse programa é “essencial, considerando que
cultura no nosso país ainda é muito cara”.
Em suas aulas, ela sempre incentiva
os alunos a irem ao cinema. Entre as atividades propostas está a
leitura-fílmica, para motivar os estudantes a participarem. “Eles questionavam
muito a questão de pagar. Geralmente, eu levava o filme para a sala de aula,
mas sempre indicando que teria filme tal, no cinema tal”.
Acompanhada do marido e os dois
filhos, a professora conta que também possui serviços de streaming em casa, e
mesmo assim prefere a ida aos cinemas. “É divertido assistir em casa com toda a
família, poder estar no quarto ou na sala, mas estar em um ambiente como esse,
que proporciona cultura e outras formas de conhecimento, é diferente”,
reconhece Jane, que revela também ter ficado feliz com a reabertura dos
cinemas.
O engenheiro José Leite, 59, esposo
de Jane, já tem uma preferência fixa pelos cinemas. De acordo com ele, “em
casa, a gente escolhe e assiste por osmose, mas quando a gente vem para o
cinema, num espaço como esse aqui, é muito bom porque você interage muito
mais”.
No Cine Daten – Paseo, do Circuito
Saladearte, o funcionário público Carlos Borges, 62, acha relevante assistir
filmes no sofá de casa pelo conforto, e se o filme for bom não considera que
seja imprescindível que seja visto no cinema, mas, para ele “dentro do cinema
há um aprofundamento na relação tela e espectador que dentro de casa não tem”.
A também funcionária pública,
Virginia Sena, 62, concorda com o colega e acrescenta: “Aqui é um lugar de
socialização. Você encontra pessoas, sai de casa e é um momento de concentração
total. Você se programa para ficar naquele tempo somente vinculada ao filme. Em
outras situações, nos serviços de streaming, você não se coloca tão concentrada”.
Mas não é o que todo mundo pensa.
Ainda no Cine Metha – Glauber Rocha, um grupo de amigos que não quis se
identificar conta que antes de ser abordado pela reportagem estava conversando
justamente sobre o tempo que não ia no cinema.
Um deles diz que pensava em criar um
espaço em casa com caixas de som e um pequeno projetor para assistir aos filmes
disponíveis nos serviços de streaming. Outro afirma que não ia ao cinema pelo
alto valor cobrado nos ingressos, que em um dos shoppings centers da cidade
pode chegar até a R$ 58 quando se paga inteira. No Cine Glauber, eles
aproveitavam apenas do café para se reunir e jogar conversa fora antes de
continuar o passeio pelo Centro Histórico.
Entretanto, cinemas como o próprio
Cine Glauber Rocha cobram ingressos mais baratos. Funcionando de terça a
domingo, o valor mais em conta custa R$ 10 (meia) e o mais caro R$ 24
(inteira). Política do preço mais barato também é encontrado nos cinemas do
Circuito Saladearte, que possui, atualmente, três salas abertas em Salvador: duas
no Shopping Paseo (R$ 36 e R$ 14, meia) e uma no Museu de Arte Moderna da Bahia
(MAM-BA) (R$ 34 e R$ 12, meia).
As salas do Cinema da Ufba e do
Cinema do Museu Geológico ainda permanecem fechadas, a primeira com previsão de
reabertura em março, quando as aulas da universidade voltarem; já a do Museu
Geológico, o circuito aguarda o fim das reformas que estão sendo feitas no
local.
Questionamentos
Perguntada sobre a preferência do
público por um serviço em detrimento do outro, seja o streaming ou o cinema, a
sócia e programadora do Circuito Saladearte, Suzana Argollo, diz que possui
mais questionamentos do que respostas. Para ela, uma coisa é óbvia: “O público
ainda não voltou ao cinema como era antes”. Seja pelos novos casos de covid e
de H2N3 ou pela preferência aos serviços de streaming, Suzana acredita que
ainda é cedo para entender o que pode estar acontecendo.
Ela conta que são poucos os filmes
que têm feito bons números. Há certos filmes com grandes números e outros com
um público muito pequeno. “Para o perfil do cinema da gente, tivemos
Marighella, que foi logo na reabertura e que nos deu um fôlego, um filme com
sessões lotadas, claro que com as restrições, mas lotadas dentro do permitido
pelas regras sanitárias. Muita gente voltou em outras sessões do filme”, lembra
Suzana. “Mas em outros filmes… Sabe aquele filme que era certeza de público?
Agora já não é mais. Até mesmo nos finais de semana, temos sessões com 20
pessoas nos melhores horários”, acrescenta.
No Circuito Saladearte, os primeiros
meses do ano são de público expressivo, segundo a sócia do empreendimento. Isso
porque é nessa época, principalmente entre janeiro e fevereiro, que acontecem
as grandes premiações do cinema. Filmes que despontam na corrida do Oscar e
vencedores do Globo de Ouro são um chamariz para as salas e, segundo Suzana,
“mesmo assim esses filmes não estão com bons números”.
Produção e distribuição
Alguns filmes da corrida de prêmios
são originais dos serviços de streaming. Isso também faz com que não haja
escolha entre um ou outro e a única opção é ver em casa. Suzana diz que isso a
lembra um pouco da Hollywood antiga, quando os produtores eram também
distribuidores e exibidores, já que eram donos das grandes cadeias de cinema. O
que vemos hoje no streaming é um repeteco daquela época.
“Eles produzem os filmes e distribuem
dentro da plataforma. Está tudo meio que feito para ter essa mudança mesmo de
comportamento. Já era uma mudança que vinha ocorrendo aos poucos, mas a gente
sente que a pandemia acelerou”, comenta a sócia do Circuito Saladearte.
Para Daniela Fernandes, diretora da
Dimas (Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia), o
lançamento de tantos serviços de streamings no Brasil e no mundo pode ser o
movimento de uma janela de exibição que se fortaleça. “É significativo tanto
para a produção quanto para o espectador”, conta.
Ela comenta que é possível também
identificar diversidade de nacionalidades e viabilizadores para a exibição de
diferentes nichos de filmes e séries nessas plataformas, mas que por outro lado
é perceptível a necessidade de ampliar esse debate. “Sobretudo, pensando na
participação de conteúdo brasileiro como um todo e, em particular, de produções
oriundas de estados fora do eixo Rio X São Paulo, como nossa produção baiana”, destaca.
Acontece que, no Brasil, as
plataformas de streaming não possuem uma regulamentação que as obriguem uma
cota de produções nacionais, como acontece com a TV por assinatura.
Tentativas de regulação em larga
escala dos conteúdos online (seja streaming ou VoD – Video on Demand) não
faltaram. Alguns deputados federais constantemente propõem reformulações na Lei
do SeAC, ou a Lei da TV paga, que nunca vão para a frente.
Atualmente, por decisão da Anatel,
serviços de streaming são considerados conteúdos SVA (Serviço de Valor
Acionado), ou seja, as plataformas não precisam seguir as diretrizes da Lei do
SeAC, operando em um ambiente sem nenhuma regulação.
“Em nosso lugar de análise,
observamos de maneira positiva o mercado brasileiro ter opções de conteúdos,
existir concorrência entre os serviços e preços distintos para os espectadores
acessarem, porém, é fundamental que as políticas públicas federais regulamentem
e ajam visando a ampliação da inserção do conteúdo brasileiro”, afirma Daniela
Fernandes.
Assinantes
A título de comparação, em 2022 a
Netflix anunciou que vai produzir 40 títulos nacionais (entre filmes, séries,
documentários e reality shows). Na Índia, somente em 2021 foram produzidos mais
de 70. E eles afirmam que em 2022 o número de produções no país deve crescer
ainda mais. A diferença é que no Brasil a Netflix possui 19 milhões de
assinantes, de acordo com dados do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Já na Índia, a plataforma possui apenas cinco milhões.
Não é possível, no entanto, saber
quais são os critérios, pois na Índia também não há uma regulamentação.
Diferentemente de países como a Itália, onde as plataformas de streaming agora
precisam destinar 30% de espaço para produções italianas, além de prover 20% de
suas receitas anuais para o Fundo de Fomento Audiovisual da Itália.
Na Espanha, Alemanha, Suíça e, mais
recentemente, Canadá, Portugal, Croácia e Áustria, as plataformas também
precisam dispor de uma cota de espaço para produções locais.
Aqui em Salvador, ainda temos a Sala
Water da Silveira, nos Barris, como uma opção acessível e com curadoria. O
espaço, mantido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, aos cuidados da
Dimas, está fechado desde o início da pandemia. Daniela conta que a sala foi
totalmente adequada seguindo as orientações do Governo do Estado e da
Prefeitura de Salvador e devem reabrir o espaço no final de fevereiro.
“Estamos em um momento animador
por estarmos finalizando parcerias para termos uma programação de filmes
renovada e contemporânea”, revela a diretora.
Experiência
Para Suzana, da Saladearte, a ideia é
tentar intensificar projetos já existentes no circuito para trazer outras
experiências com o filme, como os debates, para que tudo não acabe quando as
luzes se acendam. Atualmente, promovem sessões especiais chamadas de Cine
Cineasta, Cinematógrafo e Cine África, cada um com uma curadoria diferente.
“Queremos amplificar esses projetos formando experiências, ver o filme juntando
pessoas que querem assistir a mesma coisa, que gostam daquilo”, explica.
A frente do projeto Cinematógrafo, a
cineasta Camele Queiroz considera que um dos principais problemas nos serviços
de streaming é a falta de uma curadoria. Para ela, os streamings nos oferecem
universos, mas que podemos cair em um buraco negro onde existe muita produção
boa, mas também muita produção ruim.
Durante o período mais grave da
pandemia, em que os cinemas estavam fechados, os encontros do Cinematógrafo aconteceram
de forma virtual. No total, foram mais de 110 reuniões totalmente online. Ao
lado do também cineasta Fabricio Ramos, eles fizeram a seleção de todos esses
filmes para um grande grupo. Os filmes? Advindos de plataformas digitais, como
o streaming.
A cineasta lembra que em um dos
últimos encontros virtuais, antes de voltarem ao presencial, eles selecionaram
um filme e no dia do debate um dos participantes disse que se não fosse pela
indicação da dupla e pelas possibilidades de leitura propostas, ele não teria
passado nem dos 20 minutos iniciais do filme. “Tem ficado muito claro, entre as
pessoas que têm participado e investido algum tempo durante essa jornada de
reclusão, tentar assistir coisas interessantes no streaming. Cada vez mais é
necessário que surja uma curadoria”, afirma Camele.
Mas Camele não é contrária aos
streamings. Para ela, a forma como as plataformas ganharam destaque, a partir
do momento que as pessoas foram privadas da possibilidade de ir aos cinemas,
teve um aspecto muito positivo: “Permitiu que as pessoas pudessem continuar
assistindo filmes, buscando se conectar com determinados autores, suas
preferências, fazer suas buscas, e por este lado foi uma ferramenta que
possibilitou uma vivência na pandemia relacionada aos cinemas, mesmo com eles
estando fechados”.
Entretanto, ela acredita que falando
de conteúdo original nas plataformas, ainda há muito o que melhorar. “Me parece
que o serviço gerou uma lógica de produção, me refiro especificamente à
Netflix, sem dúvidas, com um caráter de produção em que os filmes são feitos
para não ser vistos”, afirma. Ela quer dizer que os filmes obedecem a um padrão
de roteiro, fotografia e plot twists previsíveis. “A sensação que dá é que está
surgindo um novo modelo de fazer enlatados”, analisa a cineasta…