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‘Confinada’ resume o drama brasileiro na pandemia

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O abismo social brasileiro, que só se aprofundou desde o golpe de 2016 e suas consequências nefastas (reformas que destruíram a CLT e a aposentadoria, eleição de um fascista genocida) não precisava de mais um empurrãozinho em 2020, mas este veio na forma de uma pandemia.
A Covid-19 mudou tudo para todo mundo, mas também afetou de formas evidentemente desiguais os muito ricos e os muito pobres. Este cenário é abordado com mordacidade e arte na excelente HQ adulta Confinada, de Leandro Assis e Triscila Oliveira.
Lançada primeiramente como uma e-comic (quadrinho on line) no Instagram, Confinada aborda o conflito de classes no Brasil ao fechar o foco no relacionamento conturbado entre uma empregada doméstica e sua patroa, uma influencer super rica, herdeira do dinheiro velho da Avenida Vieira Souto (Zona Sul do Rio).
Acompanhada com muito interesse por milhares de pessoas na rede social, a HQ logo partiu para uma campanha de crowdfunding para bancar a edição impressa. Lançada no final de 2021 pela Todavia, já vendeu mais de seis mil exemplares, segundo post do ilustrador Leandro Assis.
Compreensível. Fran (a influencer) e Ju (a doméstica) se parecem demais com pessoas reais, que podemos encontrar com facilidade, seja na vida real ou nos stories da vida. A primeira é uma perfeita representante da chamada “direita gratiluz”, ou “direita good vibes”. É toda positividade e bons fluidos nas redes sociais, mas pessoalmente é uma criatura do pântano, que odeia pobre, nunca trabalhou e teve tudo de mão beijada, mas arrota “meritocracia”.
Ju, por outro lado, é a mulher batalhadora e solidária que veio do morro, se esfola de trabalhar, é honesta e altiva, sabe do seu valor e não baixa a cabeça para ninguém. Ju mora na favela. Fran, em uma cobertura com vista para o mar, com três empregadas domésticas: Ju e mais duas.
Quando a pandemia começa, as outras duas avisam Fran que vão se isolar em suas casas com suas famílias. Fran corta o salário delas pela metade.
Ju, por precisar do dinheiro, faz um acordo com Fran: aceita se isolar com ela na cobertura e seguir trabalhando (por três!), mas só se Fran lhe pagar também o que cortou das outras duas. Sem alternativa, a patroa aceita. Imediatamente, Ju avisa suas colegas que recuperou o dinheiro delas e passa a transferir a quantia para elas mensalmente.
Durante a pandemia, claro, tudo acontece: Fran promove farras com amigos negacionistas no apê, faz merchan para um monte de produto caríssimo e inútil no Insta e acaba pegando covid.
Antes que acusem a HQ de maniqueísmo, vale acrescentar: Fran não é apenas uma mulher má. Ela tem outras dimensões, que Confinada aprofunda conforme se desenvolve. Na verdade, ela parece ser a pessoa menos pior de uma família horrenda. 

Fran desvia o celular da Rocinha para ficar bem na foto e manter a “good vibe”

|  Foto: Divulgação

 
Narrativa rica
Entre idas e vindas, Fran acaba caindo em desgraça junto aos seguidores e, num acesso de raiva, taca o celular na parede e bate a porta de casa, para se recolher na fazenda cinematográfica da família. Largado num canto, o celular é encontrado por Ju, que já sabia a senha do aparelho. Sem mais spoilers, o que se pode dizer é que Confinada é a HQ certa na hora certa com a mensagem certa para o país certo.
Há ainda outros personagens que parecem ter saído direto da vida real para a HQ, como o namorado cafajeste e bolsominion de Fran e os parentes remediados da família que ela despreza e que, apesar de arruinados financeiramente, seguem firmes na crença de que fazem parte da “elite”.
O relacionamento da influencer com este namorado e a família (tanto com o ramo rico quanto o decadente) renderiam HQs independentes apenas sobre eles, tamanha a riqueza narrativa impressa pelos autores. Falando em gente real, personagens da vida cotidiana brasileira durante a pandemia surgem na HQ em posts ou lives, como a cantora Teresa Cristina, a rapper Preta Rara, o ex-presidente Lula e a influencer baiana Tia Má. 
A narrativa dinâmica de Triscila e Leandro tornam a obra uma leitura impossível de largar. Entre posts em redes sociais, conversas por aplicativo e diálogos cheios de punch (as vezes no sentido literal do soco na fuça mesmo), Confinada re-esfrega na cara do leitor diversas cenas que ultrajaram a parcela “normal” da população de 2020 para cá, ressaltando o absurdo ao encaixa-las em uma narrativa que parece resumir um país difícil de entender, explicar e engolir.
Tá merecendo um prêmio Jabuti, tranquilamente.ServiçoO quê: Confinada / Leandro Assis e Triscila Oliveira Todavia / 128 páginasPreço: R$ 74,90 / E-book: R$ 49,90