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“O aumento do antibolsonarismo substitui o antipetismo em 2022”

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Mestre e doutor em Filosofia, o professor da Ufba, Wilson Gomes, diz que o aumento do antibolsonarismo substitui o antipetismo em 2022. Para ele, “quem tem fome tem pressa, por isso, a pauta econômica deva ser prioridade” na próxima eleição. Pesquisador e cientista político, Gomes diz que “as pessoas não quererem uma alternativa a Lula e a Bolsonaro”. “Desde 2013 as pessoas foram saindo do centro e foram se aglutinando nos extremos”. Nessa entrevista exclusiva ao A TARDE, ele diz que “qualquer um que assuma o país vai precisar reconstruí-lo”. Sobre a disputa eleitoral na Bahia, Wilson Gomes diz que “ACM Neto terá dificuldades sem um candidato a presidente da República” e que “Wagner e Rui são dois PTs diferentes, são dois estilos de governar diferentes”. Por isso o resultado se torna imprevisível. Confira:
Professor, 2022 está começando. Um ano importante para a política e para o Brasil. Que avaliação você faz da disputa presidencial e que cenários você enxerga para esse ano?
Complicado. Quanto à disputa presidencial, algumas peças se moveram muito no ano passado. Porque teve, de fato, a entrada oficial de Lula no jogo. Isso já vem do outro ano, mas claramente se consolidou em 2021. Começaram a aparecer os proponentes. Primeiramente, ao redor dessa ideia, Luciano Huck lançou a chamada terceira via; Ciro, depois; agora por último, um jogador importante entrou no jogo, o Moro. Com isso, não consigo identificar alguma outra força subterrânea ou oculta se movendo na direção de formar uma nova candidatura. Muito provavelmente as coisas vão se constelar ao redor dessas 4 mais fortes, ou 5, se você contar com Doria. Se é que vão permanecer, porque é uma incógnita. Todo dia se especula se Ciro vai continuar ou não, ou se Moro vai continuar ou não. Acho que isso é um fator fundamental. Houve outro elemento que é o aumento do antibolsonarismo, que de alguma maneira substitui o antipetismo. Uma força eleitoral decisiva. O antipetismo recua, basta ver os índices de rejeição de Lula para sinalizar que punir o PT não é mais a prioridade nacional. Talvez, portanto, deve estar dando lugar à punição a Bolsonaro como característica fundamental da próxima eleição. E com Bolsonaro também, de alguma maneira, uma espécie de bolsonarismo menos tosco, menos rude, que é o morismo. Então esse é um elemento fundamental, porque esse foi o fator mais decisivo em 2018. O sentimento, a leitura que as pessoas fazem dos acontecimentos públicos e da orientação do voto, o antipetismo, sabendo que o antipetismo não produz mais essa força toda. Para o azar de Moro, a anticorrupção não parece ter ainda o empuxo que teve em 2018. Portanto, quando as pessoas estão com fome, a pauta econômica talvez deva prevalecer. A pauta econômica relacionada ao desemprego, ao custo de vida, à inflação, à esperança com relação ao futuro. Isso provavelmente vai ser um grande decisor de votos. Quem tem fome tem pressa, por isso, a pauta econômica deva ser prioridade. O tempo pós Lula pode ser visto como uma lacuna, a gente foi descendo uma ladeira. Então a pauta de economia… Afetando a vida de todas as pessoas, menos PIB e mais desemprego, por exemplo… Então isso também vai ser importante para um tipo de candidatura com pauta social e menos importante para um outro tipo de candidatura com pautas relacionadas a valores como por exemplo a luta anticorrupção ou a antipolítica como Moro e como Bolsonaro. Eu penso que, rapidamente, as características fundamentais do cenário político que mudaram esse ano são essas aí.
Quem vai se constituir como uma terceira via, professor?
“Terceira via”. Essa é uma palavra que prosperou bastante, sobretudo nas redações, com os comentaristas políticos. É uma palavra com pouco significado real. Quem inventou foi o próprio Luciano Huck, no sentido que nós usamos. Porque a palavra terceira via tinha um outro sentido, se referia a outra coisa, tentando estabelecer uma terceira via entre o socialismo e o capitalismo. No fundo é uma social democracia, a chamada terceira via. Nos anos 80, 90, a terceira via era isso. No fundo, Luciano Huck resolveu que ele queria ocupar esse espaço, dando um nome, digamos assim, a uma candidatura que não fosse nem Bolsonaro, nem Lula. No fundo, é uma candidatura que nós chamamos por um bom tempo de “nem nem”. Já foi nem PT, nem PSDB. Como se fosse uma alternativa a Lula e a Bolsonaro. Bom, pensando assim como uma candidatura “nem nem”, uma candidatura que exclua essas duas forças, foi um fracasso. Provavelmente o fracasso mais retumbante de 2021. Porque vemos nas últimas pesquisas de 2021 e 60% das pessoas espontaneamente preferem Lula ou Bolsonaro. 60% espontaneamente é uma coisa gigantesca, surpreendente, sem precedentes. Então as pessoas lembram de um dos dois primeiros. De fato, isso demonstra um fracasso da ideia de que as pessoas querem uma alternativa a Lula e Bolsonaro. As pessoas não quererem uma alternativa a Lula e Bolsonaro, as pessoas querem decidir entre esses dois. Está muito mais para uma das vias principais e muito menos para as outras, para as ruelas, porque no fundo é isso. Nem Moro, nem Ciro, nem Doria conseguem passar dos 10%, ficam abaixo. Então o que você vai ter são dois candidatos, uma eleição, até agora, com dois candidatos fortes, competitivos, com menos da metade dos votos um do outro, e depois os outros lá na rabeira. A esse ponto em 2021 as pessoas estão lendo Moro como um plano B para o bolsonarismo e Ciro como um plano B para o lulismo.
Por que Ciro não cresce? Por que ele não decola e não empolga?
Ciro é um candidato preparado. Eu acho que ele se mostrou como um candidato preparado. Tem muitos que passaram pela política brasileira que você olha e diz: poxa, esse cara merecia mais do que teve, o Brasil poderia usufruir mais dessa pessoa do que de fato está usufruindo. Então você tem Ciro, Cristovam Buarque, Marina Silva, Eduardo Campos, Eduardo Suplicy, Pedro Simon. Um elenco de pessoas que, de fato, chegaram alguns ao cargo de governador, mas nunca chegaram à Presidência da República porque é um outro jogo, não é mais estadual. Você precisa ter pautas mais gerais do que sua pauta, digamos assim, uma pauta mais fechada. O Cristovam Buarque era educação fundamental, Marina Silva era o desenvolvimento sustentável. Então são campeões nisso, mas eles não ofereciam uma pauta nacional, porque isso não resolve todos os problemas nacionais. Ciro é uma dessas pessoas. Você olha e diz: bom, é um cara que daria um ótimo presidente. Mas o problema da democracia é que você tem que combinar com o povo. E é aí que eu acho que dessa vez ele fez escolhas erradas. Primeiro teve uma certa conjunção astral, no sentido de que quando se lança a campanha dele, Lula volta a ter uma curva ascendente de popularidade. Coincide. A ideia da restauração de Lula, de que Lula foi injustiçado e que é preciso reparar isso, ela estava crescente em alguns setores da sociedade depois da condenação da parcialidade de Moro pelo STF. Então pegou Lula sendo beatificado no momento em que ele se apresentou para o jogo. Se Ciro fosse um candidato, como a gente chegou a imaginar, do centro ou do centro-direita, ele podia ter alguma esperança de se viabilizar então como uma via alternativa a Lula apesar disso. Mas o que se demonstrou na verdade é que não foi assim que ele foi lido. A direita não cogitou votar em Ciro. Só se fosse Ciro contra Lula, já que o presidente da República é um dos competidores. Votos para Ciro mover para si, se os votos de Ciro têm que vir da esquerda e da centro-esquerda. Porque esse espaço já foi ocupado no mercado eleitoral por Lula, que é um competidor conhecido e tem essa circunstância de ter sido preso numa operação não muito limpa. Então, para onde iria Ciro? Pode expandir para a direita? Não pode. Tem Bolsonaro lá. E agora com a entrada de Moro, então, a direita já tem competidor demais. Você tem Bolsonaro, Moro e Doria disputando esse espaço da direita. Aí você diz: não, mas tem o centro. Porque do ponto de vista da dinâmica eleitoral, o centro sempre foi o lugar que tinha o maior número de pessoas, o maior número de votantes. Mas a característica desse ciclo eleitoral brasileiro, desse ciclo político brasileiro desde 2013 as pessoas foram saindo do centro e foram se aglutinando nos extremos. Sobretudo se moveram para a direita. A direita cresceu muito nesse período, as pessoas se moveram para a direita. A esquerda ficou lá no lugar dela, algumas pessoas até se moveram mais para a esquerda, e o centro ficou deserto. Então parece que o centro está esperando aparecer um candidato, mas não, é porque não tem centro, não tem gente o suficiente no centro para eleger um candidato, para pegar um candidato e leva-lo para frente. Esse candidato tem que vir de um dos lados. Ele precisaria trazer o eleitor para o centro. Então ele precisa de duas coisas: se vender como um candidato de centro e trazer o eleitor para o centro, uma dupla operação. Complicadíssima do ponto de vista político, e que ninguém fez, afinal. Muita gente que se diz de centro é candidato de direita mesmo, são candidaturas de direita. Então é isso, a tarefa que se apresentava para Ciro era hercúlea. Talvez o momento de Ciro foi em 2018, que deveria ter sido eleito, que apareceu uma oportunidade. Mas o PT obviamente é egocêntrico demais para perceber isso e perdeu também essa oportunidade. Agora é um momento muito difícil para ele. Eu nem saberia dizer o que ele poderia dizer ou fazer para se viabilizar como um candidato forte.
Com a polarização de Bolsonaro e de Lula tão forte, que projeto de país deve ser colocado em discussão na próxima eleição, professor?
São duas coisas. Uma é falar da polarização. Outra é que projeto. Porque o Brasil precisará ser reconstruído. Reconstruído em tudo. Desde o tecido próprio da organização política-institucional, de partidos, organizações partidárias… Depois dessa fase Pacheco e Lira… Precisa ser reconstituído. Até nas próprias relações políticas da sociedade também, precisa ser pacificado, precisa curar, sarar, fazer uma espécie de tratamento da sociedade para sarar as feridas abertas de uma parte da sociedade que quer matar outra parte da sociedade. E precisa reconstituir o projeto nacional. O Brasil decaiu todos os índices, do ambientalismo até os índices econômicos, de pobreza, miséria. Estamos afundando, estamos no fundo do buraco. Qualquer um que assuma a presidência, exceto Bolsonaro, naturalmente, que não tem a menor condição de fazer isso, porque ele é a causa dos problemas nacionais e não pode ser transformado na solução dos problemas nacionais, óbvio. Qualquer um que assuma o país precisa reconstruí-lo. Começar a reconstruir a autoestima dos brasileiros, a esperança, a possibilidade de ter um projeto nacional novamente.
O senhor acredita que a eleição nacional vai ter impacto sobre a disputa na Bahia? Há favoritos nessa disputa, na avaliação do senhor?
Veja, com relação aos estados, eu acho que no auge do PT nacional, o PT não conseguiu Salvador, por exemplo. Que é de longe o nosso maior colégio eleitoral. Esse é um paradoxo baiano. Então não é tão óbvio que as coisas se contaminem… A eleição nacional e a eleição baiana. Nesse caso especificamente, eu acho que sim. Primeiro porque o eleitor da Bahia em 2018, no ponto máximo do bolsonarismo, resolveu não se bolsonarizar. A Bahia disse não. O “nego” do João Pessoa foi entre os baianos em 2018, quando era o momento em que a maior parte do Brasil disse sim. Na Bahia não. Em quantos municípios Bolsonaro ganhou na Bahia? 3? Então, de fato, disse não. Com isso, não há razões para imaginar que a Bahia possa se bolsonarizar em 2022, quando a maior parte dos estados do país está indo em uma outra direção. Além disso, ainda tem uma outra coisa para quem não é PT na Bahia. Porque são duas forças, a depender de como se desenhe, não sabemos ainda como vai ser essa União do DEM com o PSL, qual vai ser a cara, sobretudo quem vai ser a candidatura a presidente por esse partido. Mas a depender disso, vamos ter duas forças, porque o Roma eu não sei se ele teria condições de recuar sua candidatura a esse ponto.
Roma pode levar a disputa na Bahia para o segundo turno? 
O bolsonarismo não tem força. O máximo que pode ter alguma força é um bolsonarismo light se o União se juntar com Bolsonaro. Então vão ter que lutar entre si. Mas não creio que seja o João Roma. Acho que as enchentes podem ser a estaca no coração da candidatura de um bolsonarista. Porque faltam 11 meses. Um fato muito lembrável ainda, muita imagem, muito discurso. Acho que o bolsonarismo pode ter tido uma estaca cravada no coração na disputa para o governo da Bahia nesse período. E a candidatura do partido de ACM Neto nós não sabemos ainda quem vai ser.
A ideia é, inclusive, que ele libere e não tenha um candidato próprio justamente para tentar fazer força. O próprio ACM Neto já sinalizou que não vai ter um candidato à presidência dele…
Primeiro que não é ele que decide esse negócio, porque o partido agora é do outro. É do PSL. Então não se sabe como é que vai se resolver isso. A segunda coisa é que ele vai disputar para governador e não vai ter ninguém puxando voto para ele para presidente? É difícil. Eu acho que ele vai se colocar em uma meta muito complicada. Esse cenário não é bom para ele. Não sabíamos antes como era. Mas como está longe ainda, a eleição a governador da Bahia ainda está longe, muita coisa pode acontecer. Mas o melhor cenário para o ACM Neto é alguma coisa acontecer com seus adversários. Com seu adversário do PT. Se puder acontecer alguma coisa, vai acontecer por aí. Provavelmente uma boa notícia pra ele. Porque está sem puxador de voto nacional. Vai fazer o quê, vai se aliar a Moro? Moro vai ser o puxador de voto? Moro vai ter voto na Bahia? Eu acho que vai ter menos que Bolsonaro. Por isso ACM Neto terá dificuldades sem um candidato a presidente da República. 
A oposição fala dos quase 16 anos do PT comandando o governo da Bahia. Há um cansaço de material do partido ou o senhor acredita que o partido continua competitivo, mesmo tendo Jaques Wagner como candidato?
Pois é. Eu acho que continua competitivo. Porque houve, de alguma maneira, uma alternância. Wagner e Rui são dois PTs diferentes, são dois estilos de governar diferentes. Wagner é mais PT clássico, política social, distribuição de verbas pelas secretarias. Rui é um PT atípico. É o cara que põe um capacete, um chapéu desses de engenheiro de obra e vai fazer obra. Obra, obra, obra… Nenhum secretário tem grana, a grana toda é controlada pelo governador que coloca prioridade onde ele quer. Isso lembra muito mais um estilo desse ponto de vista formal de modelo do DEM do que um estilo petista. Então foi por isso, inclusive, que ele sobreviveu a esse período contra o PT. Ele sobreviveu porque eu vi muita gente aqui no estado que votou em Bolsonaro para presidente e votou em Rui sem dúvida nenhuma. Assim como votava em ACM Neto para prefeito. Não parecia haver contradição porque é uma gestão menos política e mais gestão mesmo. Focada em gestão e em construções. Nesse sentido, ele e o ACM Neto foram duas peças raras nesse período. O ACM Neto, naturalmente, tem esse perfil do seu próprio partido. Se Wagner voltasse, seria a volta de um outro PT, de um outro estilo de governança e outro estilo de políticas públicas, na minha opinião. Tem uma coisa que é mais séria do que cansaço material. Eu acho que muita gente gostaria de uma alternativa ao PT. A questão é como se desenha essa alternativa, quem se oferece como alternativa. Não sei se o interior tem essa confiança em ACM Neto que nós da capital temos, tivemos nesse período das eleições aí, de votar sucessivamente nele e acreditar que ele podia fazer uma boa gestão. E se o perfil dele, que é um prefeito construtor de obras, pode ser aplicado ao estado. Não sei. Ainda mais que ele vai pegar também o contrapé de uma outra onda, uma onda vermelha, que provavelmente vai ser importante no estado. Então são candidaturas que, como pesquisador de política, eu acho fascinante, porque eu gostaria muito de entender como é que o eleitor vai se comportar com essa oferta eleitoral nessa circunstância especificamente. Em outra circunstância seria completamente diferente.