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Editorial – A escalada do ódio

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Não basta a punição aos assassinos do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, para o alcance da justa medida relacionada à atrocidade: o crime revela a escalada de ódio a ser contida no Brasil, ao passar pela metamorfose de país vocacionado para a paz e o bom convívio a um lugar no qual narrativas oficiais vêm incentivando, nos últimos anos, o perfil de barbárie.
O massacre de autoria dos cinco delinquentes contra o jovem de 24 anos, nutriu-se da insistência de um discurso nefasto, tomando alcance mundial o abominável fato, a ser tratado com urgência pelas Nações Unidas, por suas características similares às dos camisas negras fascistas e dos SS alemães, cuja sombra de terror precisa ser novamente iluminada.
Tornou-se o país, outrora tido como hospitaleiro e cordial, uma referência negativa em escala planetária, com tendência a novas ocorrências violentas, incluindo-se a cumplicidade dos aparelhos de Estado, por omissão ou iniciativa, como se o racismo pudesse ser promovido a política pública aceitável, em repetição de amargas experiências.
Viera o imigrante ainda menino, aos 11 anos, na condição de refugiado, em razão da insegurança alimentar e a guerra no Congo, como mais um rastro deixado pela indiferença dos invasores europeus, ao deixarem parcialmente o continente africano de onde extraíram parte de suas riquezas.
Provocou a ira dos executores, por pedir o pagamento de duas diárias de trabalho em um quiosque da beira-mar do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, mas em vez de receber o valor devido, teve como resposta, uma série de golpes desferidos por pedaço de madeira, além de covardemente subjugado, com a imobilização via uso de cordas.
A prosperar a estupidez destas quadrilhas, disseminadas pela integração dos chamados “milicianos”, não haverá qualquer chance para a lei e a ordem, sacramentada a derrota do processo civilizatório, em outro crime até hoje insolúvel, o assassinato da vereadora Marielle Franco, o ponto inicial da série continuada agora na morte do migrante.