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Editorial – Atentado à memória

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O desconhecimento e o erro moral da injustiça seriam manifestações próximas, senão unidas por cadeia de causa e efeito, a verificar no episódio de espectro negativo da comercialização das imagens de pessoas negras idosas acorrentadas.
Causou indignação a oferta das peças em loja de artesanato, bem localizada no aeroporto de Salvador, intrigando pesquisadores e integrantes de comunidades das crenças de origem africana, reinventadas na mistura com os costumes indígenas.
Mesmo o cérebro dotado de menor poder de raciocínio, característica distintiva da espécie humana, poderia ajudar a perceber, de bate-pronto, o atentado contra a memória dos escravizados e descendentes insultados pela malfadada arte racista de péssimos gosto e agouro.
As esculturas de representação dos métodos hediondos de aprisionamento evocam a dor e a aflição de 5 milhões de sequestrados, dos quais metade teria sido atirada ao mar na travessia da Costa da Mina, na África, para portos onde hoje fica o Brasil.
Embora tenham sido preservadas as autorias dos indigitados artesãos, os responsáveis pelo empreendimento dignaram-se a redigir carta de retratação, admitindo o absurdo, em novo episódio revelador do atual contexto de desequilíbrio enfrentado pelo último país a libertar-se oficialmente da escravidão.
A denúncia do desvario, por parte de historiador em viagem para o Rio de Janeiro, expõe o absurdo de o cativeiro ser enaltecido em vitrine luxuosa, no ambiente de intenso fluxo, sem estarrecer os comerciantes, até a cidadania manifestar-se.
Saiu em conta para os saudosos do pelourinho o desdobramento da peleja, porquanto uma suposta índole pacífica prevaleça no perfil dos agredidos, ao preferirem o tom polido da compreensão em vez de justificável violência física. 
De um ponto de vista do plano místico das religiões afrobrasileiras, o ataque de ordem simbólica e cultural não terá desdobramento, uma vez serem pretas e pretos velhos, espíritos livres, considerados entidades de luz voltados para o bem e a cura.